Não.
Não me fales do interior como se fosse cinza morta,
como se fosse gente quebrada à beira de uma porta.
Aqui há rugas, sim, mas são mapas da terra,
Dizes “pobres, envelhecidos, sem esperança”…
mas és tu que nunca viste a criança
que corre nos lameiros de pés descalços,
que aprende com o rio os segredos dos saltos.
Aqui não há silêncio!... Há sino na torre,
há pão a sair do forno, há vida que corre.
Há o cheiro da giesta, o toque da pedra fria,
há a força da mão que amassa o dia.
Falas de abandono, mas esqueces a raiz:
quem te deu leite, azeite, castanhas, o vinho feliz?
Quem guardou os montes que o fogo devora,
quando a cidade só chega tarde... e vai-se embora?
Não somos fracos, não somos poeira,
somos muralha feita de madeira,
somos granito, somos suor,
somos chama que queima e dá cor.
E se hoje o interior parece ferido,
é porque foi traído, esquecido, vendido.
Roubaram-nos comboios, escolas, canções,
e depois chamam-nos loucos... que contradições!
Mas olha bem: quando a serra se inflama,
somos nós que ficamos, de rosto na chama.
Somos nós que pegamos na enxada, no balde,
quando o fumo engasga e o corpo já arde.
E tu, com a tua frase vazia,
reduzes séculos de luta a meia dúzia de linhas frias.
Não.
Não somos lamento, nem fardo, nem dor,
somos sangue a ferver, somos voz que tem cor.
Interior é gente. É abraço e ternura.
É pele gasta mas viva, é mão que segura.
É raiz que resiste, é país verdadeiro.
Esquece os teus rótulos.
Aqui bate o coração inteiro
© Edmundo Agostinho





